quarta-feira, 4 de julho de 2018

Íntima



Íntima
Ando obcecada com essa palavra

Palavra que é linda, em primeiro
Que é funda, infinito

Repara que, ao dizê-la, a gente se move língua corpo inteira
Repara que sílaba lábios dentes
É assim como cair num túnel

ÍN -  escorrega
TI - estilhaça
MA – esparrama

A gente esparrama cacos líquidos onde a gente não se corta a gente se nada se reflete se lava
A gente se quebra líquida
Líquida e sem volta
A gente se costura linda
Líquida e sem medo
A gente se sabe o mundo
Íntima quando afogo doce e renasço
Íntima quando viajo sem volta profundo

...

Intimidade da criança com o recém útero-casa, aninha
Intimidade do velho com a definitiva casa-morte, sozinha
As gente sai por aí carregando as coisas que nos estão próximas.
Muito do que sou não escolho e nem sei.
Os sustos todos alinhados caoticamente me acordam em dores e sonhos
São elas, eu sei, as proximidades, as intimidades!

Abismos
Eu passei lenta por precipícios como se fosse nunca cair em nenhum deles
É que tem ali vista linda
Olha como a gente pode viver iludida que olhos são eternos. São não
O que a gente sabe da finitude da vida a gente mal sente.
Se não fosse a ilusão da imortalidade não teríamos tanto medo
Se mortalidade fosse mais que um conceito se fosse víscera não teríamos quem ligasse os botões fiações interruptores. Desistiríamos todos do mundo, por fim.
Talvez eu sustente o devaneio por que tenho medo do escuro e quero que a fiação continue ligando luz no meu quarto ilusão.

Eu preciso fingir sentido para que amanheça.
De novo de novo de novo.
Até que não.
De sempre sempre sempre
Até que nunca mais.




segunda-feira, 5 de março de 2018

Palavra colônia



O que eu digo que peso tem
que tem que ser francês
talvez para dizer o que
dizer que é assim que

(leia verso acima cantado Carmem cantado Miranda)

ai ai ai

Para lá que.
Se serve se.
Para onde te.

Uí uí uí conferência. You You You referência.

Palavra suave passeia no meu corpo brasil letra portuguesa colônia ocupa-se de ser apequenada todo santo herege dia. Todo dia todo dia tenho que engolir samambaia para you.
Sofro. Soco para dentro. 

Ai ai ai.

Palavra brasil mata.
Mata.

Mato pensamentos
Devem ser atrasados
500 anos luz(itanos)
Que ano brasil não se atrasa por que nunca chega não.
Meus heróis inocentes ingênuos caipiras.
Minhas heroínas caladas casadas por toda vida
Ano luz não chega aqui. Ano brasil. De palavra que faz ai ai ei ai mas não faz uí.
Palavra brasil de artista falando brasileiro que não
Uí uí uí
Não coube no you
Chega não
Uí uí
Ai ai
Chega não
Só parte
Nunca chega
Cai no meio
Do chão
Sem chegar
Mas caiu
Iu iu
Fecunda
Terra fecunda de ai ai
Ninguém leva a sério porque não uí
Palavra brasil fica caída na Terra

A gente não pode pegar palavra brasil na estante
Na estante palavra brasil não vende vezes três vezes quatro europeus
(ou palavra brasil vendida vendada disfarçada bem direito embalada bem direito de uí uí you)

Mas tudo bem que palavra brasil cai no chão e

nóis pega ela...

nóis lava ela...

nóis se alimenta dela...

tem suco que ai
nem you põe a gente de pé

como
como
como
como a palavra brasil

nóis cata as palavrinha brasil caída
sem flutuar sem mercado sem bolsa sem ações sem valor

nóis cata nóis planta nóis germina junto
nóis deixa palavra brasil crescer
nóis cresce junto
nóis morre crescido sem escrevê
uí uí
you you
eu
ai ai
nóis morre crescido sem escrevê.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Contorno


Toda manhã uma massa de pessoas sem nome.

Sem nome para mim, claro.

(Perdão. Todos os dias é atletismo de não centralizar-me na existência humana. Hoje ainda não o fiz.)

Toda manhã os desconhecidos.
Sujeitos paisagens são mar montanha muralha de gente.
Sujeitos paisagens lotam metrôs e avenidas.
Eles paisagem.
Eu passo apertado.

(Eu passarinho não voa em SP)

                                                       
De repente um contorno conhecido de cabeça.
Um contorno conhecido de gente que é sujeito não paisagem.
Que é gente memória gente cheiro gente voz.

A moça do andar de baixo.

Nos olhamos. Como se víssemos uma assombração.
Assombrada com ela. Ela comigo.

Como se encontrasse minha cama no vagão do trem.
Encontrar quem se conhece.
Como se encontrasse minha cama no vagão do trem.

Decidimos sorrir uma para a outra.
Oi. Oi.

Seguimos.

Um versinho aparece como contorno de palavra boba:

Quem esteve em nós, jamais nos deixa sós.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

De um sonho

Hoje sonhei que paria meu coração

aquele orgão pulsante sangue

aquela imensidão



Eu o acomodava em minhas mãos como um pássaro morto e eu
guardava na gaveta
da cômoda
do meu quarto
de menina.


aquele coração pássaro morto.


eu queria que a gente corte que a gente cirurgia que você me sangrasse que eu cicatriz que a gente escorresse que eu.

pausa

eu queria que eu quente que a gente bicho oferenda altar que eu tecido eu queria que eu cabelo que eu pele que eu.

você você você você você
você você você você você
você você você você você

até você perder sentido
na letra
quatro só
quarto
você só
guardo
você

você

                                                                   (tão só você. desculpe virar você palavra. desculpe.
                                                                                                                 te fazer tão só palavra.
                                                                                                                                      desculpe)

eu quero que a gente
não assepsia
não ponto
não band aid
não estanca.



Por favor enviem agora
todas aquelas cartas de
amor que um dia me disseram que
eu merecia
que eu senti que merecia
todas aquelas cartas
me enviem
por favor


pois hoje guardei um coração pássaro morto na gaveta

hoje eu


(nenhuma de nós é
melhor do que
nenhuma de nós.
nenhuma)


Hoje eu.

Por favor.



(poema em fluxo. de um sonho de verdade. os sonhos são de verdade?)

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Texto para ser mal-dito.


Prólogo para o delírio

Para que possa dizer voz preciso ser palavra?
Para que possa ocupar espaço preciso ser norma?


[Distância entre o que sinto e o que escrevo aqui num  formato para ser revisado às cegas.]

A quem é permitido livrar-se de citações e embasamentos? A quem é permitido o delírio que provém de certeza da incapacidade de fazer caber na palavra alguma coisa que é inegavelmente maior que ela? A quem é permitido lançar solturas no espaço palco papel tablado abandono de si citações certezas para tentar conectar com o que está ali sem ser coisa alguma que se possa conceituar.

[Pretensiosa querer ser eu a que não está aqui para citar.]


Abandonar conceitos para virar outra coisa que move de verdade.


Apesar dos conceitos seguimos fazendo o que não tem nome a não ser que seja nome provisório que se for provisório não escreva não escreva não escreva.

Dance o nome até que o nome caia.

[A uma mulher é permitido ser delirante sem que seja aquela tomada pela emoção aquela sem razão aquela sem a calma sem a paciência de estudar estudar estudar? Posso olhar e sentir e já querer logo transformar tudo em palavra negação de palavra fria? A uma mulher é permitido ser delirante sem que seja aquela louca?]

Não me permito falar sem estar totalmente afiada antenada lida e relida e estruturada em livros infinitos de pessoas que deixaram de citar. Em algum momento deixaram de. De tanto eles não eu. Silenciada. De novo. 

Posso eu deixar de citar?
Ex-citar.
Posso ser eu essa pessoa?

Delírio

Imaginem um teatro onde a gente sempre deve fazer um bom teatro segundo o que é fazer um bom teatro? Imaginem um teatro onde eu vejo tanto teatro que já sei o que é bom e sigo fazendo. Bom bom bom. E não há nada a ser quebrado nunca. Bom bom bom. E talvez fosse hora de não fazer mais teatro algum que quisesse ser bom. Talvez fosse hora de fazer teatro que quer ser muito ruim. Por que nós não cabemos mais no mundo. E por que insistimos num teatro que quer caber? Quer ser bom. Bom para quem? Bom  para o folheto semanal virtual limitado dezenas de pessoas que entendem que entendem outras dezenas que acham que deveriam entender outras dezenas que deveriam gostar e milhões que seguem sem nada a ver com isso.

O mundo quebrado partido com as coisas todas virando cacos e nós insistindo mosaico numa nostalgia que apenas nos serve numa nostalgia âmbar gelatinada onde fazemos vemos e nos damos importância.
Por que?
O mundo quebrado e queremos entender as paletas dos cacos e eu acho cada vez mais que deveríamos deixar pisar nos cacos e sangrar sangrar sangrar. Teatro ruim. Teatro podre. Teatro tosco.

Teatro sem técnica.
Voz sem técnica.

O desejo de destruir tudo que não seja tão vital quanto a respiração. Desejo de não falar mais a não ser quando a palavra vira ar. Desejo de não contar mais histórias. Desejo de mover o corpo até dar tonturas e da voz ser esse grito dessa tontura desse quase cair. Desejo de despencar no chão. Estatelado o ator frágil ao público. Ele pode ser nada. Sintoma dos corpos humanos que são nada. Tratados como nada. No teatro querem ser eternos esses corpos de arte e talvez fosse a hora de ser nem o agora. De ser só o antes. De ser só o que acabou de acontecer. Estatelados os atores olhariam para o público e estaríamos todos sem saber o que fazer nem para onde ir nem o que dizer. O ator saberia que ele deve estar aqui e o público deve estar lá (será?). E só. As ações breves e curtas. Para durar um instante que vira passado logo que acontece. Sem luz âmbar. Sem gelatina. Uma luz branca de hospital de repartição pública de guichê de banco de escola. O ator desmorona. Morre o corpo eterno e fica ali aquele punhado de vísceras.

Tiraram nosso camarim nosso espelho nossas luzinhas redondas. Tiraram nosso pano. O pano não cai. O pano não sobe. O pano não abre. Tiraram nosso palco e agora somos chão. Sem ponto sem texto sem guarda volume sem cadeira sem almofada sem refletores sem pianos. Sem pessoas. Sem nada. Sem ninguém. Mas nós estamos aqui fingindo que.

Teatro tosco precisa parar de fingir que.

Precisa mostrar maquiagem que foi feita num canto qualquer com luz qualquer o figurino qualquer do brechó qualquer.

Eles precisam saber que sobramos nós e eles apenas e que estamos juntos nessa tarefa de dar conta da luz branca e dos guichês.

Mas que nossos guichês estão vazios do lado de lá. Não sobrou ninguém.

O chão a fita crepe o retalho a maçã mal lavada num bacia e a gente fingindo que.

Um instante, senhoras e senhores, já voltaremos ao show que deve continuar, mas agora agora agora resta um corpo que desmorona junto com aquele grupo aquele espaço daquele grupo aquela história aquela fábrica que virou teatro e voltou agora a ser fábrica porque não existe ninguém do outro lado do nosso guichê.

Nós seguimos fingindo conferências e periódicos e artigos e revisões às cegas como se o mundo ainda não tivesse acabado.
Deveríamos sair às ruas como zumbis que somos e ocupar cada espaço vazio cada lugarzinho. Ocupar cada lugarzinho sem nenhum medo de morrer. Somos zumbis.
E sem essa nossa cara disfarçando e nosso público de nós mesmos nossos leitores nós mesmos avaliadores nós mesmos. Nós.

Des-ata. 
Des-cobre.
Ex-cita.

Aquela voz que de tanto querer ser voz vira máquina de fazer voz que canta que fala que palavreia.
Aquele corpo que de tanto querer ser corpo vira anatomia funcional fisiologia desumana.
Aquele texto que de tanto querer ser aceito vira artigo de ser lido por ninguém ou por quem quer fazer mais artigo a ser lido por ninguém.


Parar.
Pausar.
Fomentar no outro algum desejo de nós.
Autofagia causa ânsia.
Fomentar no outro um desejo por nós.
Na pausa. Na ausência. Na suspensão.

Num teatro onde um corpo desmorona e toda voz é ar, todo texto é escrito negando a própria letra.





domingo, 11 de junho de 2017

Todo domingo


Jesus me lembra praça. Que eu ia pra encontrar jesus mas encontrava o pipoqueiro que tinha olhos de amor.

Jesus tinha que dividir atenção com mamãe papai vovó. Perdia. Era segredo gostar mais de mamãe do que de deus.

Tem um jesus guardado numa caixinha de música. Está quietinho lá e não rodopia nem canta quando a gente abre.

Como a gente olhava devagar para o deus que faltava no presépio e ia chegar nas mãos da menina de laço na cabeça! O deus que faltava. A gente esperava o deus o jesus o papai noel e eu não sabia onde começava um e onde terminava outro.

Embrulhavam-se caixinhas de fósforo para serem presentinhos de mentira na árvore de natal.

Tenho mania de felicidade pisca-pisca.

Eu nunca gostei de guardar deus numa caixinha em janeiro.

Deus solto como passarinho canta voa bica lá no quintal da bisa.

Eu ninava passarinho quase morrendo e formiga que estava afogada na pia. Achei que era santa.

Eu já nasci mãe da minha filha. Só não sabia. Hoje sei.

Perigo: segure deus com cuidado para não esmagar seu pescocinho.
Amarelo: teve uma vez que eu vi a verdade enquanto brincava na praia com baldinho.



Todo domingo tento encontrar deus e acabo encontrando minha infância.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

aquele lugar onde vamos morar quando esse mundo acabar

Procuro um lugar para ficar velha.
Abraços flácidos
Sorrisos gastos
Risadas enrugadas
Cabelos prateados.
Velhas.
Onde não se olhe para trás atrás da impossível juventude passada.
Onde olhem para nós a frente em frente velhice conquistada.
Onde nós velhas não queiramos ser como elas
Onde elas queiram ser como nós
Desatadas
Livres

Lá, onde a gente pode ser velha,
Não queremos ter nenhum minuto a menos
Óculos
Vestidos
Largas
Histórias
Seios
Sexo
Líquidas
Escorridas

Para tomar mais daquele vinho ficamos na mesa no mundo juntas.
Para trocar aquelas letras imagens umas com as outras.
Debruçadas nas palavras esquecemos de contar o tempo.
Tempo
Templo
Corpo:
Lugar de se guardar chocolate amoras e cicatrizes.
Lugar que se guarda que se abre janelas portas que aumentam cinturas diâmetros.
Nada fica tanto tempo liso.
Nada fica em tão pouco tempo precioso.
O tempo é fazedor de raridade.
Procuro um lugar para ser velha.
E para me encontrar com outras velhas e podermos rir da vida que passa.
Que possamos rir dos nossos rostos não esticados.
Vai ter ali nesse riso uma beleza.
Dessa beleza faremos nossa juventude.
O que é livre não envelhece.
O que é livre vira história.

Conta-me, tempo.
Pois eu não te contarei mais.
Conta-me.

Para que eu passe em paz.