quarta-feira, 7 de junho de 2017

aquele lugar onde vamos morar quando esse mundo acabar

Procuro um lugar para ficar velha.
Abraços flácidos
Sorrisos gastos
Risadas enrugadas
Cabelos prateados.
Velhas.
Onde não se olhe para trás atrás da impossível juventude passada.
Onde olhem para nós a frente em frente velhice conquistada.
Onde nós velhas não queiramos ser como elas
Onde elas queiram ser como nós
Desatadas
Livres

Lá, onde a gente pode ser velha,
Não queremos ter nenhum minuto a menos
Óculos
Vestidos
Largas
Histórias
Seios
Sexo
Líquidas
Escorridas

Para tomar mais daquele vinho ficamos na mesa no mundo juntas.
Para trocar aquelas letras imagens umas com as outras.
Debruçadas nas palavras esquecemos de contar o tempo.
Tempo
Templo
Corpo:
Lugar de se guardar chocolate amoras e cicatrizes.
Lugar que se guarda que se abre janelas portas que aumentam cinturas diâmetros.
Nada fica tanto tempo liso.
Nada fica em tão pouco tempo precioso.
O tempo é fazedor de raridade.
Procuro um lugar para ser velha.
E para me encontrar com outras velhas e podermos rir da vida que passa.
Que possamos rir dos nossos rostos não esticados.
Vai ter ali nesse riso uma beleza.
Dessa beleza faremos nossa juventude.
O que é livre não envelhece.
O que é livre vira história.

Conta-me, tempo.
Pois eu não te contarei mais.
Conta-me.

Para que eu passe em paz.

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