sexta-feira, 12 de maio de 2017

assombrada

o que acabei de apagar ali.
aquela palavra discurso aquele outro aquela mesa aquela infância aquele vai e vem aquele anda não anda aquela voz trêmula.

assombrada

de um lado aqueles monstros identificados rotulados já sentenciados aqueles que foram realmente aqueles que estiveram realmente que calaram bateram disseram para a menina que fui que ela era feia linda gostosa quando ela estava aprendendo a ser gente de novo. Aqueles. Aquelas. Aquilo tudo já identificado. Voltam vez em quando. Canalhas. No pensamento a ideia de ser maior melhor mais esperta superior melhor melhor melhor. Na rua ao cruzar com eles digo bom dia boa tarde boa noite aos monstros. menininha educada que sou. aversão às confusões aos embates desgastes sorriso escudo me protege de ter que causar em alguém alguma dor. finjo ser minha a dor do outro não porque sou poeta mas porque sou criada mulher para a dor do outro ser minha e meu sorriso ser escudo disfarçado de proteção para mim mas não é para mim. Finjo ser dor mas sou medo.

faltam metáforas quando a dor pulsa.
verdade e poesia são inimigas
ou uma ou outra
medíocre poeta que sou deixo letras virarem essa coisa fluxo
escorro
verdade sem metáfora
cafona
meus poeminhas assombrados por guerreiras decididas aos gritos com palavras emaranhadas de sons gritos de guerra
eu poeminha com vergonha escondido
esconde esconde
não me ache que aqui está quietinho e escuro e quente


de outro lado estão os que são a força que não sou a decisão que não tomo a viagem que não faço porque tenho medo de voar
assombra viver esperando ser alguém que está logo ali.
a sombra
eu sei que nada disso é real por isso assombra.
um grito um soco uma verdade um embate uma decisão uma poética uma escolha
e eu catando letrinhas no jardim
ridícula
Assombra a mulher que não sou porque não quero assombra a mulher que não sou porque não posso

debaixo da cama os mais inofensivos esperam. voltam vez em quando mas estão em caixas organizadoras empacotados e eu os abro quando quero porque também tenho dessa mania de me assombrar por que quero verter alguma coisa.
mutilação

mas aqueles outros todos aquelas impossibilidades gigantescas aquela decisão que não é nada aquela vida que passa sem ser nada de verdade aqueles outros que apontam que abordam que definem que estruturam sem demora os seus conceitos.
Não estão embaixo da cama.
Dormem comigo me acordam me reviram me instigam me provocam.
Assombram esse meu mundinho idiota esse mundo cheio de se se se se se. esse mundo sem sim sim não não. Esse mundo se se se se se.


Esconde esconde
em cima do muro
reticente
ciclo
espiral
afeto
imagem
textura
corpo
seja
grita
escuta
palpita
define
espera
morte

Não encontro palavras para a minha bandeira.
Não encontro bandeira para as minhas palavras.
A solidão é infinita.





Um comentário:

  1. "finjo ser minha a dor do outro não porque sou poeta mas porque sou criada mulher para a dor do outro ser minha e meu sorriso ser escudo disfarçado de proteção para mim mas não é para mim. Finjo ser dor mas sou medo."

    O que escrever diante disso? nada, apenas contemplar o orgulho de ser irmã de Liana Ferraz.

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